Butoh, barro, pó, montanha

Vi quando a mando da memória
Ele lambeu desertos antigos
E na língua irrigou com saliva
E no rosto, lágrima
Grão por grão dos destroços da pedra.
Aprendeu com o avô
Que cultivava montanhas lavrando o sabor do tempo
Abrindo nascentes cristalinas
E escorrendo argila fina
Do topo arredondado até o vale.
Brotava argila branca da face-neve e cabelos, vermelho terracota dos quadris-mata e seios, argila preta do pântano e dos pés-raízes.
Sua avó recolhia microcamadas da pele montanhosa com a colher de bambu e apalpava intimamente a matéria ainda úmida. Despia da sua face superfícies cansadas, moldando máscaras na beira do Fugi na borda do dia, abrindo bocas e cântaros de bico-pássaro no fértil do barro nobre.
E o menino seguia se lo-co-movendo e se transformando fogo em flor até o poente.
Só um observador das sombras conseguiria ver o movimento das montanhas e aprender com elas a dançar.
respira.
Assume o leme dentro do remo solitário um cardume de carpas anciãs. 
Reinam aquáticas feito um terceiro olho na cabeça do rio e eu não temo a direção desta canoa, pois estou com elas. 
Avoa rasante um mistério fosforescente que trisca o bico num espelho d'água em silêncio para saciar a sede dourada da voz crescida de bicho-fêmea, desloca um murmúrio-acorde-córrego em mim que ressoa nos quatro ventos. 
Há reflexos de luz e folhagens de sombra nesse remanso de pouso-pássaro e canto-pluma. Pequenas fadas e duendes brincam cada um com um espelhinho na mão, invisíveis para outros bichos da terra, mas não estranhos para as entranhas da selva. A onça ri graciosamente com a brincadeira. Borboletas cintilam trêmulas com a vibração da força, mas depois relaxam. Faz sol de canudinho e garoa leve. A toca da coruja está levitando e ela provavelmente está dormindo. 
Enquanto isso, lá fora o tempo mastiga cascas cadentes de árvore e escamas encolhidas deixadas no leito perene e orbital da vida, e a cobra de água doce troca de pele até suar salgado. 
No mar, ondas de ternura. Onde já não dá pé pra ilusão alguma, também não há feridas. 
e é no ventre da loba
que encontro pouso (e pulso)
pro analfabeto
pássaro
de meus sentidos

e é na lava que varre o vale
na virilha de nascente âmago
que tateia a formiga de fogo
na fúria da rosa
num feixe de luzes
e de cristais

e é na volta invisível
no retorno que reverbera
no intangível da falta
que a flora e a névoa se comungam
e a saudade: néctar.. 


e agora me imagino deitada numa terra úmida e argilosa sob árvores antigas com tua gravidade toda entregue sobre meu corpo numa calmaria pulsante que abraça o morninho que repousa no cardíaco depois da tempestade... um moinho de afaguinhos-formiga-de-mangue, um enraizar macio de sábios segredos do alento comungado e uma gira cabocla de flechas luminosas que atravessam as camadas epiteliais das mãos do tempo, alcançam o centro da Terra e retornam seiva que percorre cobras vegetais até chegar de novo nas raízes dançantes deste corpo-um-só-corpo, sangue magma nas artérias, vermelho que inventa ninho em nossos úteros para acolher pássaros venusianos, pássaros que escorrem a cada lua uma voz nova para a ave-luz-mãe. Deixo-me semear deste brilho, permito-me ser atravessada pela sua flecha e me ofereço inteira à terra em gratidão.
solitude: é namorar (estar em amor com) o silêncio..

sincronia: costura fina. É o universo conversando entre nós..

o gênio da lâmpada
a poeta do udu
a cozinheira e a massa de bolo
o dançarino de frevo e o chão batido
o barbante e o pião de madeira


em movimento
tudo conversa em verso
e vento
        nos espirais dourados
dos cabelos dela


recria gira
reluz intenso
procria asas
e alquimiza
em girassóis


com o cosmos inteiro..
nave inválida
se corrompe o céu
e congestiona via de pássaros

nave invasiva
se mais veloz e de vórtices mecânico-famintos
tritura a vez dos vôos mais selvagens e ínfimo-infinitos

o tempo é espiral
árvore é espinha-dorsal
é berçário anti-aço
de ninhos vagarosos

outrossim, vos digo
em impulsos repentinos
desatino
aves retornarão
e derrubarão aviões..
parte do que parte paira
no rastro
da pólvora e do cometa
me aperta no peito
me aparta do átimo do instante
me aporta na noite
na luz fúnebre do astro
E relampeia em cada hábito
E relampeia em cada pacto
E relampeia em cada ápice/(acne)
E relampeia em cada átomo..


sentimento: um entre dentros -
esta membrana fina de pôr-do-sol
contornando o silêncio.

.

é o ato da passagem
da paisagem ao macro
do avanço ao retorno
do aroma à memória
do holofote ao pequeno abajur
na cabeceira da cama.
ou o inverso.

é flecha que vai e volta
perfurando tuneis
no coração da gente
para que o tempo
nunca deixe de passar..
espelho de fogo:

tateava vértebras de pedra
e areias movediças
macias macias
quando tropecei numa estrela:
!
pintou um clima..
(sambinha)

eu escrevo em lápis
que é pra ouvir no tato
este atrito de grafite
na superfície de um papel sulfite

e a vida em posição de lótus
a caneta é muda, não ousa mais
riscar no tom desta carícia
entre fibra e traço, rabisco e enlaço

no engate do nós no corpo
nós do outro no dentro de si
entre membros cardíacos máximos
janelas, lunetas, gavetas e fins

imensidões elásticas
grávidas de riso e lágrimas.
imensidões erráticas
ávidas de amarras flácidas.

imensidões elásticas
filosofando nádegas.
imensidões aquáticas
no calo, no pêlo, no pássaro..

encantar-se: quando a Beleza brinca de imensidões elásticas no coração da gente.



- caixa-preta 1.1.
tua nua lua sol-ar(de)
cabelo . raiz . e .  riso
narciso

curvas avessas
atabaque ave alaúdes
tato selva seiva
cordas e cardumes
galhos céus veredas
encostas e vagalumes

(guardo a tempestade numa caixa-preta..)
se. regresso
ar voraz

anuvio
em navios
inversos

pavios tortos
fósforos e
aviões

e se afundo
teclo, trisco e faísco
entalho semi-céus
com atadas centelhas
:
.
entulho retalho retiro respiro reparo
.
"tem uma ternura pegando fogo em cada estrela.."
.
des-invento
há vento para desviar a chama
.
des-mergulho
retorno artéria e silencio
.
terra
cio
terra
.
arr-et 🔙
.
parte do que parte
relampeia.
{aço-cena}

catedral da sé
nordestino entre pombas
sob o sino.. 

terceiro sinal

entre a cena, a sina e o sino
não se acena, açucena
inda que se assine nome, assovia fome

diz do aço que esquenta-esfria
ressoa, açoita e agoniza
nos emplaca: via sacra

e onde já não caberiam 
mais ritmo nem verso
arrisca também o rima-dor 
sem casa ou regresso:

onde andará o diretor?


frio na Chapada
estrelas brotam do chão
ao nascer do Sol..
no topo da montanha
águias arrancam
penas e mágoas..

de jenipapo
preto no vermelho
coração pintado..
Frente ao fogoDa fera afoita e falsaA faca fértil da força A fé na façanha da florFincando a farsa.

Menos camomila, menos flor-de-maracujá, mais flor-carnívora.Nem rosa muda nem muda para poda ornamental nem flor que se cheire.Nem Maria de Espírito Santo nem Amélia que era a mulher da verdade de homem nenhum Nem dentes -de-leão: dentes-de-leoa.
Não são de pétalas as lágrimas nem são feitas para flor.

Chora homemDesaba na terra Desata da couraça de merdaCom choro, com velaSeja comido por ela:Pachamama está em festa!
Pois minha dor me interessaMas me interessa ainda mais saber que não nasci monogamicamente para a lágrimaMuito menos para você.E que também não cresciNem pra pia nem para o seu colchão "tamanho Rei"Nem para rir de suas piadas escroto-machistasNem com promessas santas a serem escritas na lápideNem para ser sua mãe e mãe dos seus filhos ou mãe dos seus privilégios ou dos abismos emoldurados de quem quer que seja
Não vim como obra de caridade Nem pra salvar a Idade das Trevas A bruxa segue solta!Segue sendo todas as evasEvas, heras e ervasElas e euE teu fogo não me queima mais nem me chama.

Quero mesmo é olhar nos olhos das minhas sombras, das minhas manhas, das minhas manas, das chamas nossas que nos amam muito maisE adentrar este mistério-fortalezaDe faróis acesos para mim mesma.Cavernas florescem orvalhadas no meu mergulho de auto-conhe-cimento, areia branca e sal E respiro e desfaço ninhos e descamo luas e sangro sem qualquer constrangimento.Danço "como uma flor que não pede licença para nascer".Desmorono, reconstruo e sigo.Sei que não estou só.

Neste mesmo embalo cantoE a voz de sereia também não me basta.Assanho em mim o verbo-substância transfor~mar.É intenso firmar os pés sob as ondas na tempestade.Mas vejo vida e poema renascendo entre eu e vocêToda vez que encaramos algum silêncio petrificado E atravessamos essa fenda no peito e na vozDe pés descalços e olhar valente Na direção de um horizonte vermelho.Poente de velhas morais Crescente de força, união e liberdade.
borboleta:

na ampulheta 
de todo ser 
há poesia 
em cada grão 
de areia..
é preci~o~so
assumir delicadezas
antes que se partam em pedaços mudos
antes que sumam na pressa ou nos muros
antes que caiam na fossa.

na mala de mão o sonho
para que na malha do mundo insone
a agulha do amor sobrevoe e sobreviva
e mergulhe flecha e costure versos perenes
com lãs ametistas de águia doce.
amar é fincar um prego no meio do tronco do mundo
pra pendurar telas de pássaro
tentar emoldurar o vento quando perfumado..
mas é junto
perceber o desenho
do leito
nas corredeiras da folha
descamar no ato
sangrar a lua
sorver a seiva
manchar a cama
conjugar asas
libertar o traço
o passo
e a saliva do olho.
navego ainda
vez ou outra
por neves derretidas por dentro
sólidas por fora
camada fina
mergulhada estou
e você nem imagina. 
entregue à dança
avança a sereia
alcança a boca
e beija a nado
dente por dente
o tubarão.
ali, logo depois do horizonte, infinitas crianças brincam de balanço debaixo do mar..
.
.
é assim que se formam as ondas.
tem uma ternura pegando fogo em cada estrela.
verás na lupa:
duas mil historias
em cada ruga.
cafuné adentro:
pia cócega
ou arrepio?
no colo da cama
litorais rubis
encarnam sereias..


no colo da calma
mil almas tsurus
badalam silêncios.. 
chega o tempo
faz cócega e a gente
sorri de outrora..


ambos abertos
braços ao meu encontro:
rodopiamos!

rema menina, não espera a vela e o vento se encontrarem. 
mas cubra os pés quando sereno: não deixa o tempo te maltratar. 
e a noite finda sempre um recomeço. 
cai a tenda bruta, eu estremeço.
do véu me dispo pra vestir o céu.
ao som do sino
alquimia nas nuvens
faz água de benzer..
um coração aberto não é aquele que rema sem direção, mas é quem tem como farol sua intuição, a intenção mais simples, real e profunda da alma. Quem assume as inconstâncias de ser livre não vê espontaneidade na maioria dos contratos e não quer viver estrategias sensatas para evitar medos ou transformações. Pelo contrário, ele opta por desbravar as próprias inseguranças, assumi-las e desatá-las. Está sentindo isto agora e já não é o que era há duas semanas. Percebe as marés e os ciclos. O frágil, a força e a ressaca. Portanto age segundo o que está vivo. O caminho segue iluminado. Também não é uma obediência cega ao desejo. Sabe das suas necessidades e as responsabilidades de barco que tem onde chegar. Um coração aberto se abraça com amor e sem culpa.
que todo ser possa se dedicar ao que faz sua alma vibrar com mais inteireza.
O menino então apagou a fogueirinha com as próprias mãos. Tupã, o deus-sol, refletiu por instantes, compadeceu-se e o tornou "brasa grande", espírito tocador sorridente que segue aquecendo em cantorias o coração do universo.
ao já eterno "Chico".
Tenho o tempo fora de mim. Sou toda espaço dentro, até as bordas da pele, a ponta dos fios, até as beiras do outro. Sou espaço no corpo desde o leito onde dois outros rios se fundiram passageiramente e se fingiram eternos. Não tenho o tempo em mim. Careço de música pautada, toda Ela é cantada apenas pelo que me toca dentro. Pelo que alcança meu espaço íntimo. E desafia as fronteiras de dentro-fora. Quando "nascem" o tempo, aprendo o lento e o atraso. Sou acalanto de mundo ao tempo mudo e aflito da seta que corre no sentido alunar do espaço. Insisto no embalo da criança insone. Dizem que quando "nasceram" a criatura, cravaram suas pálpebras nas sobrancelhas e proibiram-na de ninar. Para que não sonhasse algum dia em ser outra coisa. Então inventaram antes e depois e deram nome aos movimentos naturais do espaço. Quando o que é espaço dentro passa a dançar fora, nasce a flor, corola, primavera. Quando o contrário, é a flor no dentro, semente, diz-se que outona. Achei uma violência menor do que a seta. E até uma espécie de salvação. Então passei a me dedicar a isto, aos espaços no tempo.
desprego couraças e decolo 
enquanto o canto dá céu 
e colo.
as estrelas: centelhas de infinito
telhas 
da morada dos olhos

assoalho antigo do espírito
e das utopias..
Abranda o coração
a brasa do abraço
observo nuvens por sobre o ombro teu
abandono o abismo e o breu..
A lua é uma flor que terminou em bem-me-quer..

Quando a cabeça não dá conta é o corpo que pede a conta..
no travesseiro
cheiro de lua cheia
ainda que ao meio.. 
onde já se viu
caminhar sem sutiã
pra sentir o tempo? 

meu movimento
não faz respeito ao vício, rapaz
mas ao vento..
~
mulher das águas
pés descalços na relva
dançam orixás.



de libélula
sem pressa do mergulho
pousa a sereia.
desse mundo
nada meu
nem eu..
detrás da queda
teus cabelos me guardam
casulo d'água.
na cachoeira
mágoa não tem lugar
a água leva.
enquanto canto
Dona Maria chora
onze partos.
de madrugada
todos me chamam pra dançar:
estrela-por-estrela.
lençol de nuvens
tenta em vão abrigar
o sol da manhã.


na beira do rio
dois besouros copulam
beleza nova.
ponte estreita:
três cavalos selvagens
e uma borboleta..



noite adentro
uiva o cão e o vento
- é lua cheia!
vento: folha nua
cintila no tempo.

para a velha jabuticabeira
bico de papagaio:
braços de rio
bordam teu seio.




alquimia:

doura o espelho
a flor
enquanto se mira.
pelas cortinas
atravessa a janela
a dançarina..


leque se abrindo
baila com as águas
pavão marinho.



pétala
sempre ao par
na borboleta -

nem bem

nem mal me quer..


tua boca a soprar
cataventos de flores:
saias rodando.
pés agitados
adormecem nos dedos
entrelaçados.
na bicicleta
dorme o menino
estrada mágica.
margem da ilha
de cada cílio do olho
um arco-íris..

ideia de jerico
procurar simpatia
na cara do boi.
sob a neblina
par de vagalumes
se revezam de luar.
sono leve
roça a minha face
nariz de moça. 
moda alumiada:
vagalumes desfilam
na palma da mão.
noite luminosa:
girando o guarda-chuva
meu olhar brinca de carro-Céu.


chuvinha cai
na cabeça desfaz nuvem
.
brisa fresca.
entre ruínas
rio que corta canta rouco:
a dor tem corpo.
no travesseiro
aroma de amora
é meu cheiro.
rabo de olho:
espia escapa
espia.


noite alta:
broto de orvalho
aninha a lua.

noite caindo:
menina derrama a lua
numa lágrima.

sonhei de índia
e fiz descanso no rio
lar em canoa.


pote trocado:
sapatos engraxados
carimbam arco-íris
onda quando quebra
faz morrer na beira
sede da areia. 


assobio:
é de lábio
que eu vento. 

sinal amarelo:
uma flor de ipê que cai
sobre o asfalto.
em tempos de seca
de cada lágrima que cai
chove uma tempestade.


na sombra do jardim
tua companhia
cheira a jasmim.
entre céu e mar
uma baleia triste
espia um beija-flor.
apertadinho
passarinho na gaiola
inventa lugar.
colo de mamãe
amolece o tempo
de amadurecer.
pra cá do som
vou ciscando nas cordas
memórias de meu amigo.
brisa mariposa
pousa nos lábios: só-pra...
ouvi-lo salivar.

cintura nas mãos:
pra virar de estação
giro em quatro pés!
nozinho cego
bengala de miçangas
tateia cores.
sob sépia tarde
pousa nas mãos da velha
borboleta verde.
em terra vermelha
tempestade faz brotar
flor no cabelo.
dentes de leão
me cobrem de criança:
de-leite nuvem.




cama vazia:
depois da despedida
o frio é maior.
"haikai do apego":

em tua presença
tende à reticência
o ponto final..

acima: Buda
talhado em madeira
guarda meu sono.